Parlons football
Oi. Espero que esta newsletter te encontre bem e radiante com a Copa do Mundo de futebol, pois é disso que ela vai falar. Não a Copa em si, mas sua razão de ser, a paixão que nos une a todos, como uma religião civil, ritualizados por duas equipes de 11 jogadores e uma bola em disputa. As provas desse encantamento são numerosas, eu estou aqui, humildemente, para oferecer mais uma: o futebol também é idioma.
Podemos tirar exemplos da nossa língua materna, que toma do futebol palavras para dizer os fatos e as emoções cotidianas, ou seja, o que há de mais fundamental e importante na nossa existência. Quem já foi "colocado de escanteio" saberá como dói. Dizemos "embolou o meio de campo" para as coisas complicadas, e "virar o jogo" para a tentativa de reverter uma situação desfavorável. Quem é bom no que faz "tira de letra" e quem não é, geralmente "pisa na bola" ou "dá bola fora". Um aposentado "pendura as chuteiras" e um demagogo "joga para a torcida".
Torcida, aliás, cujo nome é atribuído ao jornalista esportivo Coelho Netto, que teria redigido uma crônica sobre as mulheres numa partida do Fluminense, cunhando a frase "enquanto eles jogam, elas torcem (as luvas)". Essa história é contestada e há razões para desconfiarmos que seja causo. Não faz mal. O futebol se inscreveu na carne da língua portuguesa com um verbo único, um conceito próprio, uma tradução espiritual.
A língua francesa também tem com o futebol uma relação de reconhecimento, simbiose e criatividade. Embora a francofonia compreenda países de todos os continentes, cada um com suas particularidades linguísticas, algumas expressões são compartilhadas e podem ser entendidas de Paris a Abidjan, de Tunis a Montreal. Ser preterido, mantido fora de uma ação coletiva, escanteado, enfim, é "être mis sur la touche" (ser posto de lado). Já "marquer à la culotte" — culotte é a calça curta do uniforme, e a expressão significa marcar tão de perto que se toca na roupa do adversário — significa vigiar, observar de muito perto, seguir com atenção. Se você enrola, estende algo para além do tempo previsto, se a reunião poderia ser um e-mail, pode-se dizer "jouer les prolongations" (jogar a prorrogação); porém, se a enrolação é estratégica, se ela faz com que o tempo trabalhe a seu favor, aí é "jouer la montre" (jogar com o relógio). Quando cabe a alguém agir ou decidir, diz-se que "la balle est dans son camp" (a bola está no campo dele), e quando se critica alguém com muita ênfase e até agressividade, o verbo que descreve o ataque é "tacler", usado em campo quando um jogador dá um carrinho ou faz uma entrada mais bruta. Uma pessoa socialmente inábil, que faz comentários inapropriados, que erra o timing da comunicação, pobrezinha, ela é "hors-jeu" (fora de jogo). Caso os ânimos se acirrem, diz-se "balle au centre" (bola ao centro), como um apelo ao recomeço e à temperança.

Talvez eu nem precisasse explicar a maioria das expressões, porque nós também temos noções e usos parecidos de elementos do futebol. Mas esse foi apenas o primeiro tempo. Eu também gostaria de escalar algumas histórias dos países francófonos participantes da edição de 2026. Cada um tem suas expressões, piadas, fantasmas, fantasias, ou seja, sua maneira de dizer ao mundo quem é e o que o futebol significa para seu povo. Vamos aos melhores lances.
Costa do Marfim
Fique sabendo que a Costa do Marfim é campeã do mundo em Maracana, uma modalidade de futebol na qual jogam 6 contra 6, sem goleiro, numa quadra de handebol, num terreno de terra batida, na rua. Muito drible, muita marra, muita graça. O Maracanã, nome de um dos estádios mais famosos do mundo, tornou-se disciplina. Por favor, veja:
Argélia
O apelido da seleção argelina é "Les Fennecs", uma espécie de raposa pequena, orelhuda e incrivelmente fofa que vive sobretudo no deserto do norte da África. O fennec é ágil, astuto, resistente e independente, atributos que nenhum argelino nega aos seus. Em 1982, quando a Argélia se classificou pela primeira vez para uma Copa do mundo, a seleção foi associada ao animal pela imprensa francesa. Apenas nos anos 2000, o apelido foi incorporado e tornou-se um emblema nacional e uma referência nos textos do jornalismo esportivo argelino.

Senegal
A seleção senegalesa passou a ser chamada de Leões de Teranga pela imprensa internacional por causa de um slogan turístico que anunciava o país como "Sénégal, pays de la Teranga". Téranga é a palavra wolof que nomeia o senso de hospitalidade e generosidade com os estrangeiros tão caro aos senegaleses, então faz sentido que eles sejam designados assim.
Mas não é só por isso. Há bastante leões na África para que o jornalismo esportivo precise especificar com complementos e distinguir os Leões do Atlas (Marrocos), os Leões Indomáveis (Camarões), os Leões de Teranga (Senegal). O paradoxo é que uma equipe de futebol não entra em campo imbuída exatamente de hospitalidade e gentileza, então, para os senegaleses, esse apelido não faz tanto sentido e tampouco é usado para descrever seus Leões (no site da Federação eles se chamam "Lions du Sénégal").
França
A língua francesa tem expressões com a trave (poteau): quando a bola bate na trave e entra, é o "poteau rentrant"; se a bola bate e espirra para fora, é "poteau sortant". Eu mantive essas expressões à parte porque acredito que elas sejam tão representativas dos franceses e sua vocação enciclopédica, sua obsessão em catalogar, descrever, analisar a vida humana em toda sua ironia, quer ela desemboque em glória ou em tragédia – nós, amantes do futebol, sabemos que, em algum momento, nosso destino se resumirá a uma bola na trave que entra ou bola na trave que sai.
Camarões
"Mbunja" não é uma palavra francófona, nem créole, mas ela coexiste com francês e eu sou fascinada por países com pluralidade linguística e boas histórias. Segundo relatos, mbunja é o nome que se dá em diversas comunidades do litoral do país (falantes, aliás, de idiomas diferentes entre si) à rede de arrasto que os pescadores usam. Bem, em tempos mais simples, essas redes eram amarradas ao gol para manter a bola dentro da área do campo. Pouco a pouco, a função de reter os peixes foi ofuscada pela função de reter as bolas e, para os entusiasmados torcedores camaronenses, tornou-se o grito de celebração do gol marcado.
República Democrática do Congo
Nada tem mais força do que a história de Michel Kuka Mboladinga, alcunha Lumumba Vea (Lumumba Vive), sósia de Patrice Lumumba que acompanha os jogos da seleção congolesa e permanece imóvel por 90 minutos, braço erguido, para lembrar da violência política que privou o país de seu primeiro líder eleito depois da independência. Em 2026, ele se tornou integrante da delegação dos Leopardos, a seleção do Congo. Este vídeo é comovente, não perca a oportunidade de assistir.
@frontofficesports Who's the man that stands completely still for all 90 minutes of DR Congo’s matches. His name is Michel Kuka Mboladinga — but in Congo, they call him “Lumumba Vea,” meaning “Lumumba Lives.” worldcup fifaworldcup congo #lumumbavea #lumumba
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Haiti
O apelido da seleção haitiana, “Les Grenadiers”, vai além do futebol e está ligado à história e à identidade nacional do Haiti. O termo remete aos granadeiros, soldados de elite associados à coragem e à determinação, evocando também os combatentes da independência haitiana e a resistência diante das dificuldades.
A curiosidade é que esse nome foi escolhido num concurso nacional com voto popular. Até 2008, a seleção haitiana era chamada "Le Onze", uma maneira de evocar o corpo do time, uno e coletivo ao mesmo tempo. Assim, 4 nomes são propostos à população: "Les Grenadiers", "Les Dessaliniens" (Os Dessalinianos / Os seguidores de Jean-Jacques Dessalines, figura central da independência haitiana), "Flamme de la Caraïbe" (Chama do Caribe) e "Flambeau d'Espoir" (Tocha da Esperança).
A expressão em créole "Grenadye alaso!" (Grenadiers, à l'assaut!/ Granadiers, ao ataque!) traduz um espírito de luta e sacrifício: ser granadeiro é aceitar riscos e honrar os que vieram antes. Para jogadores e torcedores, o nome representa disciplina, união e orgulho coletivo, uma prova da ligação indelével entre esporte e memória nacional.

Albert Camus amou o futebol desde menino. Escolheu jogar como goleiro porque era a posição onde menos se gastavam os sapatos — órfão de pai e de família pobre, não podia se dar ao luxo de correr demais no campo. Cada noite, sua avó inspecionava as solas e lhe dava uma surra se estivessem gastas. Na juventude, chegou a integrar o time do Racing Universitaire Algérois. Em uma entrevista, ele afirma que:
Le peu de morale que je sais, je l’ai appris sur les terrains de football qui resteront mes vraies universités. J’ai appris qu’une balle ne vous arrivait jamais du côté où l’on croyait. Ça m’a servi dans l’existence et surtout dans la métropole où l’on n’est pas franc du collier.
– Albert Camus (1953)
O pouco de moral que sei, aprendi nos campos de futebol, que continuarão sendo minhas verdadeiras universidades. Aprendi que a bola nunca vem do lado onde se espera. Isso me foi útil na vida, e especialmente na metrópole, onde as pessoas não são francas.
Camus entendeu o que muitos de nós apenas intuímos, que o futebol pode reorganizar nosso sistema de códigos – linguísticos, morais, emocionais – e abrir o infinito diante de nossos olhos. Porque a existência é absurda, precária e contingente, nós temos essa gana tamanha de beleza, elevação e eternidade. A educação pela bola determina que a experiência do campo traduz algo genuíno sobre a vida e desenvolve um caráter inclinado à coragem de se prestar a jogar o jogo, sozinhos e juntos. Com leveza e seriedade, tocar a bola pra frente, de novo, e de novo e de novo. Joga bonito.